Secrets of the Neighborhood!

 por Júlia Abreu de Souza e Margô Dalla

Amsterdã é uma cidade com particularidades únicas; ao mesmo tempo e em algumas circunstâncias, “acende uma vela pra Deus e outra para o diabo” (um ditado português que quer dizer: deve-se precaver dos dois lados, do bem e do mal). Uma irreverência que chega a ser engraçada: no muro da “Oude Kerk” a igreja mais antiga de Amsterdã, há uma placa com a inscrição “Quartier Putain”. É em pleno Red Light District de Amsterdã, bairro boêmio no centro da cidade, que abriga  um dos museus mais excêntricos do mundo.

Foto Margô Dalla

Foto Margô Dalla

Final da primavera da Holanda. O dia está lindo e o Red Light District muito animado. São três da tarde: turistas, moradores, ciclistas e curiosos andam prá lá e prá cá, com mapas em telefones, olhando, procurando, tentando assimilar o que acontece naquele local. Perdidas, diante de tanta movimentação, finalmente damos de cara com  uma casa típica do bairro, estreita, de três andares, com o nome em vermelho.

Na bilheteria, uma simpática recepcionista com uma maquilagem extravagante nos recebe.

Após a primeira cortina, uma sala de projeção pequena com um filme mostra o cotidiano do bairro:
Glória compra uma nova luz vermelha fosforescente para seu quarto, crianças entram nos locais e brincam com os animais de estimação, logo após o expediente, ela namora; antes de começar o batente, se prepara, vai à manicure, arruma o cabelo, compra uma lingerie nova, faz os serviços de lavanderia, umas pessoas entregam papel sanitário, outras, refeições rápidas.

Horários de trabalho, e alguns dados (aproximados) curiosos:
– cerca de 900 prostitutas trabalham diariamente no bairro.
– o bairro tem cerca de 290 prostitutas de vitrine
– cada uma paga cerca de €150 por dia de aluguel pelo quarto onde trabalha.
– em geral, uma visita dura menos de 10 minutos
– há uma rua onde só homens transgênicos trabalham.

A partir do século XV a prostituição se concentra no bairro, nas tabernas freqüentadas por marinheiros. Amsterdã cresce rapidamente. Depois que os espanhóis conquistam a Antuérpia, muitos judeus ricos fogem para Amsterdã e o dinheiro é usado para financiar viagens para as Índias que resultam em grande sucesso comercial. O porto de Amsterdã e a cidade chegam a se confundir, tão grande é a conexão.

Naquela época o exercício da profissão não era proibido, mas, por outro lado, procurar uma prostituta era (a eterna ambivalência holandesa entre a tolerância e a interdição).

A legislação mudou várias vezes e a profissão foi plena e oficialmente legalizada em 2000. A ideia do museu, subsidiado pela instituição Geisha e pelo município, é contribuir para que a prostituição seja encarada como um ofício como qualquer. A rigor, as prostitutas têm que se registrar como tal e pagar impostos. De fato, Geisha zela pelos direitos laborais das profissionais do sexo, pretender ensinar o público a respeitar a profissão (por ex. não tirando fotos na    rua), e visa à criação de um sindicato. Entretanto, na prática a teoria é sempre outra. A ilegalidade continua.
Outra questão presente e constante na profissão é o tráfico humano. Inúmeros relatórios internacionais e depoimentos de pessoas que conseguem escapar do cerco delatam, desde o aliciamento, ao confisco de passaportes e a introdução de drogas entre as mulheres recém chegadas de várias partes do mundo. E ainda há os chamados “loverboys”, termo usado na Holanda e na Bélgica para um cafetão jovem e sedutor que  manipula garotas (em geral, menores e emocionalmente frágeis), utilizando-as como prostitutas ou como correio de drogas.

Com a entrada de novos países da Europa de Leste para a UE em 2004, o número de trabalhadores de sexo oriundos da região aumentou. Ao que parece, 60 por cento das prostitutas do bairro da luz vermelha vêm do leste europeu trazidas pela pobreza, desemprego e falta de perspectivas futuras. Vêm para a Holanda na crença de que podem ganhar muito dinheiro e depois, voltar. Não contam com a exploração, coerção e violência atrás das janelas.

Outras fotos