Lego Lima – O BELO ESTÁ NA FORMA DA VIDA

Lego Lima – O BELO ESTÁ NA FORMA DA VIDA

texto e fotos Margô Dalla

Desde que cheguei em Amsterdã, me falam de Lego Lima. Cheguei a marcar com um amigo de ir até seu ateliê, mas acabou não rolando; e então, um dia, entro em nossa reunião budista e a encontro no grupo. Muita sorte!

De bicicleta, me perco, me acho, volto, olho o GPS do telefone e acabo chegando no ateliê de Lego Lima-, essa artista intuitiva, cheia de vida, de grandes idéias e projetos.

O espaço de trabalho é grande e charmoso. Muitas obras de arte de várias fases e quadros imensos-, muitas vezes medindo 3X2m. Ver esta “Pequena Notável” trabalhando e criando é impressionante porque ela consegue lidar com máquinas pesadas, rolos grandes e o resultado é genial e criativo!

O surrealismo(1)

A gravurista Lego Lima é de Ouro Preto/MG, e está na Holanda há 22 anos. Casada com um jornalista holandês tem dois filhos.

Começou a interessar-se pela gravura(2) em Ouro Preto. Desde pequena já desenhava e aos 13/14 anos, produziu imagens muito fortes de pessoas-, uma fase onde procurava a liberdade de criação. Foi para a FAOP – Fundação de Arte de Ouro Preto e lá aperfeiçoou sua técnica.

Se intitula uma gravadora surrealista e acredita que a vida é também surrealista. A busca constante da perfeição, dentro do imaginário, é sua característica principal e associa imagens armazenadas no subconsciente, que, segundo ela, ao elaborar suas obras, simplesmente surgem com a vida e seus códigos.

Os primeiros desenhos

“Meus primeiros desenhos foram em preto e branco. Eu buscava só uma cor e estava sentindo que meu trabalho era autobiográfico, uma experiência vivencial! Não queria isso-, queria dividi-lo com mais pessoas; então eu conheci a técnica da gravura. Nesta época eu já tinha uma linha muito forte e interessante e comecei a desenvolve-la. Intitulei minha primeira obra “O belo está na forma da vida”. Eram trabalhos de corpos, máscaras e rostos sem braços, deformados.”

As informações

“São informações que surgem e dão forma de uma maneira intuitiva. Como se eu tivesse gavetinhas e nelas ficassem guardadas imagens e recordações.

Estou neste momento estudando as formas e linhas de Niemeyer. O trabalho dele está na minha cabeça há muito tempo. Tenho uma informação visual sobre seu trabalho, sobre o processo que usava. Isso tudo fica na minha energia em forma de projeto e um dia as idéias chegam e fluem! Gosto das linhas minimalistas do arquiteto -, assim também acontece em minhas gravuras.

Prefiro  trabalhar com poucas cores. No início, usava preto e branco, há muitos anos uso 3 cores; mas às vezes, fujo do meu padrão e aplico muitas cores e nuances.”

O simples

“Meu momento é o de simplificar! Acabei de sair de uma fase de auto-retrato. Eu já havia passado por ela há muitos anos, mas precisei voltar para resgatar e entender o que está acontecendo com minha vida e obra. É como se estivesse renascendo/recriando. Uma pesquisa própria-, do que eu significo neste espaço. Estou com uma série de 30 gravuras diferentes. Uma autobiografia contemporânea.”

O processo

As experiências de vida vem à tona quando desenha. Um processo intuitivo usando as técnicas que aprendeu, estudou e outras que inventou.

Lego desenha em cima de alguma superfície dura (MDF), trabalha com a goiva (ferramenta da xilogravura – instrumento cortante que é utilizado para entalhe em madeira) e recorta as partes já com as cores definidas com uma máquina tico-tico.

A artista gosta que o fundo fique neutro para que as formas fiquem mais fortes.

“Fica tudo solto, monto o quebra-cabeça e passo na prensa-, máquina que usamos para aplicar tinta sobre uma matriz e posteriormente transferir para o papel. O resultado final é a xilogravura, uma técnica da gravura.

A obra

“O resultado é previsível… até certo ponto, porque nem toda obra é igual! Dependendo de alguns fatores como a quantidade de tinta ou o trabalho na prensa.”

De acordo com Lego, o final pode ser controlado, mas também pode surpreender com novas ranhuras, linhas e sulcos.

O que me agrada muito e torna o produto final mais contemporâneo. O interessante da gravura é que você pode “brincar”,  diz a artista.

Os prêmios e exposições

O primeiro foi ganho na bienal da cidade de Curitiba/Paraná aos 19 anos. Em 2000, Lego foi a primeira a ganhar o “Prêmio Cees Goekoop” e nomeada a artista mais marcante da manifestação artística da cidade de Leiden na Holanda. Muitas exposições individuais e coletivas aconteceram  nestes últimos anos, em inúmeros países como  Brasil, Alemanha, Áustria, Egito, Japão, Eslovênia e Holanda.

Lego Lima, exótica e genial, tem como tema principal a figura humana-, o feminino e o masculino e suas expressões-, sejam elas angustiadas, tensas ou mirando incrédulas o mundo…seu traço, é o traço da vida neste grande universo de contrastes. Suas obras são com poucos detalhes e enorme impacto visual.

Visite site da artista http://www.legolima.nl

(1)-Surrealismo – formas baseadas na fantasia/sonhos e no inconsciente.

(2)-Gravura é uma imagem representando algo, como pintura, desenhos, relevos, etc. A gravura é um processo de incisão (riscar, gravar) sobre determinada superfície ou material que permite a sua reprodução a partir de uma matriz. É o resultado de uma ou mais técnicas de impressão, que consiste em transferir uma “imagem” da matriz para outro tipo de suporte.