Gilberto Gil at Paradiso in Amsterdã!

Reverenciado, amado e cantado, Gilberto Gil apresentou no Paradiso em Amsterdã, o show “Tour for All”. Vindo do “Umbria Jazz” na Itália, primeiro ponto da turnê européia de 2013, recebeu alguns jornalistas brasileiros e holandeses onde falou sobre política, cultura, economia, copa do mundo e vida pessoal.

O baiano Gil tem uma forma muito especial de expressar a cultura brasileira. Vitalidade única que se supera a cada ano. Assim é em sua carreira e também quando foi Ministro da Cultura no Brasil. Inovou com projetos que o Brasil nunca tinha visto. Fortaleceu a cultura popular através do programa Cultura Viva com seus Pontos de Cultura e o o Sistema Nacional de Cultura onde discutiu em todas as principais cidades e estados brasileiros a elaboração do Plano Nacional de Cultura que ainda tramita no Congresso Nacional e há poucos dias, foi aprovado um projeto importante chamado Vale Cultura.

Gilberto Gil, 71 anos, sempre buscando o novo, o inventivo em sua carreira artística! Envolvido com movimentos sociais e políticos, debate novas formas de entender e fomentar a cultura e é ávido desbravador das possibilidades abertas pela era da comunicação digital, entre elas o software livre e a flexibilização dos direitos autorais.

O show – O Forró
“Segundo reza a lenda, uma das hipóteses do surgimento da palavra forró (for all) foi quando os soldados americanos, na segunda guerra mundial, ocuparam pelo menos duas bases importantes no Brasil-, uma em Recife e outra em Natal. Eles organizavam festas abertas ao público. Consta que o povo gostava daquelas festas “for all” (para todos) e de tanto comentarem, acabou virando forró.”

O Ministro da Cultura Gilberto Gil
Quando Gil esteva à frente do Ministério da Cultura, eu era uma das assessoras de comunicação na Câmara dos Deputados e acompanhei de perto sua atuação.

Depois de 6 anos longe do Brasil, gostaria de saber se os projetos continuaram.

“A notícia que nós temos é a de que no início, com a gestão do Juca-, que era o número 2 na minha época e depois passou a ser o ministro, ele levou adiante todos os programas e ainda fez mais coisas. Na gestão da Ana de Holanda, o que sei é que alguns destes projetos sofreram uma descontinuidade-, uns mais, outros menos, mas eu não acompanho propriamente…, mas tenho a impressão, de que houve um restabelecimento por parte do ministério dos Pontos de Cultura e agora com a ministra Marta Suplicy, seguramente interessantes ações devem estar acontecendo por lá.”

Dois importantes projetos do então ministro Gil estão sendo discutidos no Congresso Nacional. O Vale Cultura um benefício que será destinado prioritariamente a todos os trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos, com o objetivo de garantir meios de acesso e participação nas diversas atividades culturais desenvolvidas no Brasil e o Plano Nacional de Cultura.

“Na época, na Câmara dos Deputados, nós criamos uma bancada com mais de 300 deputados, alguns oriundos da Comissão de Educação e Cultura. Trabalhamos muito…eu fazia visitas constantes à Câmara para informar, prestar contas e dialogar sobre nossas ações. Eles nos acolhiam e ouviam nossas propostas. Conversamos também com os senadores, governadores, prefeitos enfim, fizemos inúmeras ações conjuntas e transparentes ”

Tour for All
Neste show, Gil reinventa o baião e coloca a sanfona em destaque com Mestrinho- um jovem Sergipano, da novíssima safra de sanfoneiros, de acordeonistas brasileiros e discípulo de Dominguinhos, Oswaldinho, Luiz Gonzaga – os mestres do acordeon.

“Meu primeiro instrumento foi o acordeon e tenho uma afeição muito grande ao forró e aos gêneros nordestinos. Há exatamente 4 anos, gravei Fé na Festa. Eu já havia feito uma releitura de Luiz Gonzaga no filme de Andrucha Waddington Eu, Tu, Eles quando lançamos “Esperando na Janela”; depois foi a vez de Fé na Festa-, gravei grandes sucessos de Luiz Gonzaga e escrevi canções como a que dá nome ao álbum e Assim, Sim e agora apresentamos no Tour For All na Europa um pouco disto tudo. Diferentes gêneros musicais com outros arranjos.”

Mestrinho – o acordeonista
Quando perguntado por um jornalista holandês- Jan-Win Derks da revista Jazzism se via similaridade entre a Tropicália(3) e o movimento que está acontecendo agora no Brasil onde os estudantes/as pessoas estão protestando e se fazendo ouvir, respondeu:

“Alguma coisa está vindo…outros tempos e século, mas nós estamos vivendo esta mudança em todo mundo. Movimentos nos Estados Unidos, na Espanha, Turquia, Grécia e no Brasil também. Sofrimento e abandono vindo de muitos setores da sociedade e dos governantes que acabam explodindo em “apartheids”. Isto não é novo, e atualmente existem novos meios para divulgar as insatisfações sentidas como as redes sociais, networks e outras mídias que levam a comunicação a uma rapidez impressionante-, “special spectrons”. Existe uma nova classe média no Brasil com milhões de pessoas acessando computadores e participando dessas redes e as idéias sendo disseminadas. Nós temos razões clássicas para o que está acontecendo!”

Sobre a Holanda
“Basicamente foi a Holanda quem começou o capitalismo que a gente conhece com a Companhia das índias Ocidentais, onde restabeleceram um novo processo de exploração das riquezas periféricas, criando uma nova burguesia. A Holanda sempre acolhe a contemporaneidade e busca se adaptar aos tempos modernos.”

O novo livro
“Esse livro é um conjunto de narrativas sobre o lado predominante de minha vida pública. O lado ameno. Sou uma pessoa regular e este livro reflete isto. A infância no sertão da Bahia, os dias difíceis na prisão, o exílio e a carreira de inconfundível musicalidade; os famosos festivais na década de 1960, a política, as letras, a cabeça aberta e o coração a mil. Todas as fases importantes da minha vida estão em “Gilberto bem perto”, escrito por mim e pela jornalista Regina Zappa. O livro, lançamento da Editora Nova Fronteira, é ricamente ilustrado com fotos de meu arquivo pessoal, resultando em uma importante obra tanto para fãs como para estudiosos da MPB e do Tropicalismo.”

“Na verdade, é um livro de amenidades sobre uma pessoa que sou eu”.

A geração de Gil – os amigos artistas
“Trabalhamos juntos, estimulamos uns aos outros a fazer coisas inovativas e descobrir direções. Muitos amigos e artistas que são do meu tempo estão sempre fazendo coisas diferentes, indo a lugares, outros países e muitos deles ainda estão em atividade; como por exemplo a Gal que encontrei no festival de Umbria/Itália. Ela está fazendo um trabalho interessante; mas estamos diminuindo aos poucos nosso ritmo. Isto é natural porque a ambição deve estar em um tamanho adequado; mas nós continuamos a inovar e seguir o que está acontecendo no mundo para dar nossa interpretação através de músicas e falas.”

Composições para outros músicos
“Algumas vezes componho para amigos quando me pedem. No último ano escrevi canções para Ana Carolina, Mart’nália, Mutantes…continuo fazendo músicas. De vez em quando gosto de compor e ofereço a alguém. Depende do momento. Estou sempre envolvido com música. Todo dia eu tenho idéias e escrevo. Produzo a cada ano, de 30 a 40 canções. Agora estou em turnê…quero fazer alguma coisa, estou esperando a inspiração.”

O show de Amsterdã
Gil começou o concerto cantando 3 músicas do album Fé na Festa! Tocou alguns clássicos de Luiz Gonzaga e sucessos como Vamos Fugir, Andar com Fé, Expresso 222, Não Chore mais-No Woman No Cry, Every Little Thing Gonna Be Alright de Bob Marley, Lamento Sertanejo e Eu Só Quero Um Xodó de Dominguinhos, O Casamento da Raposa, Vamos Fugir, Madalena, Andar Com Fé. Novos arranjos em ritmos pop, folk, forró, sons do nordeste como xote, baião e xaxado, algumas vezes o som de trio elétrico, som de festa junina-, quando a platéia fez uma enorme roda de quadrilha e cantava e dançava junto. Acompanhando Gil, o guitarrista Sérgio Chiavazzolli, baterista Jorge Gomes, contra-baixo Arthur Maia, acordeon Mestrinho, violino Nicholas Krassik e o percussionista Gustavo Di Dalva.

A vida pública

“Não tenho nenhuma vontade de voltar para a vida pública. É uma vida difícil e complicada! O campo político é cada vez mais engolfado pelo grande sistema, e determinado pela vida econômica; e a cada dia mais a serviço dos grandes interesses sistêmicos. Neste cenário, agir independente, levar avante alguma coisa mais autônoma e ter atitude política é cada vez mais difícil. Continuo filiado ao Partido Verde mas não tenho atuação política.”

Copa do mundo
“A minha expectativa é a melhor possível especialmente agora que nós encontramos de novo um time, um jeito de jogar. Fui ver a final contra a Espanha na Copa das Confederações e fiquei esperançoso e animado. Penso que o Brasil pode vir a ter uma bela atuação e acho que o torneio será bom para o país porque restaurou estádios como o Maracanã, o Mineirinho, a Fonte Nova além de ter construído outros; enfim o país tem infra estrutura básica razoável de transportes, serviços e hotelarias, atrações turísticas, e muita gente vai querer viajar pelo Brasil. Vai ser uma copa interessante e do ponto de vista do futebol, também!”

O intercâmbio
“Eu sempre fui um artista marcado pelo gosto pela troca/intercâmbio. Minha música sempre se referiu aos elementos locais brasileiros e nordestinos, às várias formas de samba e de expressões musicais, mas sempre me interessei por outros ritmos como o da música americana, cubana, européia, africana…além de estar sempre aberto a parcerias variadas. Gosto de misturar elementos provenientes destas origens diferentes. Sempre fui um mercador de ritmos.”

Os planos
“Cada vez mais a vida da gente não pertence propriamente a gente-, no meu caso tive que fazer escolhas, estabelecer metas e deixar claro a linha do horizonte para que eu pudesse me dirigir a ela; enfim, por mais que tenha tomado minha vida em minhas próprias mãos, sinto que meu destino não me pertence. Ele vai escapando…pertence a vida…não tenho mais, sem dúvida alguma, as ambições e ilusões que tinha quando era mais jovem.”

Os artistas sempre estiveram identificados com as vanguardas da vida em todos os tempos da história. Podemos citar como exemplo Van Gogh, Rembrandt, Leonardo da Vinci; eles são identificados pelo povo, pelo público como pessoas que tem um diálogo mais íntimo com as camadas superiores da vida mental e psíquica. São identificados com esse mundo da criatividade e da invenção. Os artistas e os cientistas; então a eles é dada esta tarefa de se serem uma espécie de antena da sociedade. O povo confia nos artistas.