Escritura Privada de Suyan de Mattos

fotos Margô Dalla e Cristiane Bueno


A artista plástica visual Suyan de Mattos, carioca e moradora de Brasília, esteve em Amsterdã e realizou no Westerpark, performances de seu projeto intitulado Escritura Privada.

Escritura Privada

O meu projeto tem a ver com o conceito do duplo. Vários literatos e escritores escreveram sobre o assunto e quando li o livro “O Duplo”(1) do escritor russo Dostoiévski fiquei maravilhada-, a partir daí comecei a  procurar outras publicações que falassem sobre o tema. Encontrei escritores como Machado de Assis, o argentino Jorge Luis Borges, o mexicano Otávio Paz e cheguei em Guimarães Rosa com “Pequenas Estórias” publicado em 1962. Em um dos contos “O Espelho”(2) Guimarães Rosa fala do duplo-, do ato de se olhar no espelho – de começar a desimaginar-se. Fotos abaixo: a artista com Tânia Neves.

A performance

Decidi então fazer um projeto de uma performance/instalação/intervenção pública e urbana. Projeto pronto, enviei-o à Can Serrat International Art Centre que fica em El Bruc na Espanha (3) e fui aceita para uma residência artística. Eles oferecem 5 bolsas por ano e fui uma das selecionadas. Lá comecei a desenvolver o projeto. Fiz as performances nos arredores da escola e depois no Westerpark em Amsterdã.

O trabalho

Acontece em frente a um espelho irregular-, em cima é mais largo do que embaixo. Eu o penduro ou encosto em algum lugar e convido alguém para escrever com caneta pilot vermelha ou preta, seu nome, características físicas, psicológicas, emocionais e o que mais quiser, e quando não tiver mais espaço, escrever por cima do que já está escrito, por cima da “imagem” que ela tem dela mesma, até que seu duplo desapareça sob as escritas. Funciona como se ela não se imaginasse mais naquele espelho. Depois do espelho estar completamente escrito, a pessoa remove tudo que escreveu e se vê novamente. É um exercício interessante e as reações são diversas.

Na Espanha, muitas pessoas fizeram a performance. Estou filmando e fotografando todas as intervenções. Muitos estrangeiros escrevendo na própria língua, tornando o trabalho mais interessante. Uma verdadeira “Torre de Babel”(4).

O objetivo

É o de fazer uma exposição no Brasil com as filmagens e fotografias. O resultado final será apresentado no Museu Nacional (MUN) em Brasília.

(1)Sobre O Duplo de Dostoievsky, um homem dialoga com ele mesmo e mostra o quanto o isolamento social traz consequências para a sua vida.

(2)O espelho é o centro da obra “Primeiras Estórias”, de Guimarães Rosa, onde o narrador, em primeira pessoa, conta de sua luta para provar a falta de lógica e de sentido do mundo. Diante de um espelho, foi descobrindo com o passar dos dias a mentira que é a aparência humana. Num processo de “desimaginar-se”, vai verificando que o homem, como todas as coisas, não passa de uma metáfora. No limite do absurdo, ele chega a ver sua “forma” invisível.

(3)Can Serrat International Art Centre na Espanha está localizado em uma casa de campo rústica a apenas 45 quilômetros de Barcelona na cidade de El Bruc, dentro dos limites do Parque Natural de Montserrat. Uma residência – um centro de apoio a artistas para que possam desenvolver suas idéias.

(4)A Torre de Babel, segundo a narrativa bíblica no livro de Gênesis, foi uma torre construída por um povo com o objetivo de que o cume chegasse ao céu, para tornarem o nome do homem célebre. O livro conta a história de um grupo de pessoas, que antes do surgimentos das diversas línguas, foram morar no oriente. Lavé, o Deus hebraico, então, desce “para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam” e vendo o que faziam, decidiu confundir-lhes as línguas para impedir que prosseguissem com sua empreitada, dizendo “Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que não entendam a linguagem um do outro.”

A tese do duplo tem várias nuances, principalmente nas áreas do pensamento. E o duplo gera ao mesmo tempo, a partir do ato, dois efeitos, uma bifurcação simultânea. Quando fiz a performance, comecei a escrever devagar e depois com o tempo, aconteceu um frenesi, uma compulsão…uma urgência, uma pressa de escrever mais rápido, de preencher o vazio e ao mesmo tempo medo do espaço acabar…e aí?

Desimaginar-se foi um exercício estimulante e interessante.

Visite site da artista http://www.suyandemattos.com/index.html