BH e INHOTIM

“A intenção é promover o diálogo com o entorno de montanhas e matas e as artes plásticas”.

Três amigos fotógrafos e uma paparazzo autorizada, resolveram se encontrar em Belo Horizonte para o lançamento de um dos livros de Renato Soares -, um paulista/mineiro, sedutor, contador de “causos”.

Este livro é sobre as Minas Gerais, um passeio sobre o estado, mostrando seus cantos, recantos e encantos. Renato, um antropólogo/fotógrafo ou fotógrafo/antropólogo, tem atualmente o maior acervo de fotos de tribos e índios brasileiros.Visite http://www.imagensdobrasil.art.br/

Eduardo Warmelinger veio do Rio de Janeiro. Advogado Tributarista workaholik, resolveu dar uma reviravolta na vida e tem andado por este mundão de Deus fotografando e interagindo com as pessoas. Tem uma alma romântica e uma covinha na face direita quase irresistível.

Este fotógrafo itinerante, percorre continentes em uma motocicleta. África, Ásia, Europa, Estados Unidos estão logo ali. As distâncias para ele são meros detalhes; e aqui no Brasil, em seu carro/escritório, saca de “um tudo” quando a gente precisa de alguma coisa. Desde aparelhos de pressão, canivetes, remédios, lanternas-, alguns instrumentos básicos para sobreviver e se safar quando for preciso. Conheça mais sobre o fotógrafo http://www.rotaway.com/

Anginha Buaiz, minha amiga, comadre, capixaba, jornalista, produtora, inventadora de modas (como eu), bonita, engraçada e inteligente. Sabe aquele tipo de amiga que é tudo de bom? Um senso de humor sagaz…e como ela mesma diz, uma paparazzi da vida! Então, estes personagens desta história se encontraram na capital mineira.

Fotógrafo Renato Soares e Margô Dalla – Foto Eduardo Wermelinger

Eu, com minha alma inquieta, aventureira e curiosa que quer  ver e fotografar tudo, cantar todas as músicas até ficar rouca, dar risadas, rever/reencontrar velhos amigos e fazer novos, tínhamos como destino ir a Inhotim/Brumadinho, um parque, um museu a céu aberto de Arte Contemporânea idealizado pelo colecionador de arte moderna Bernardo Paz. Não conseguimos vê-lo e conhece-lo, mas ele passou por nós em um dos carrinhos que o parque oferece.

A idéia era ficarmos dois dias em Inhotim, dormir em algum lugar e voltar para Belo Horizonte. Escolhemos a Dona Carmita, uma pousada charmosa e acolhedora em Brumadinho e dormimos uma noite lá.

Já tinha lido e pesquisado sobre o parque, que além de ser um Centro de Arte Contemporânea é também um Jardim Botânico. Em meio a flores, palmeiras, flores, e gigantes bancos de madeira, estão os pavilhões com as artes, mas nada se compara quando se conhece o lugar ao vivo e a cores. Muitos brasileiros e estrangeiros visitam o complexo de artes todos os anos. Não é um lugar de fácil acesso, muitos quebra-molas até chegar no parque e ainda passar por Brumadinho. Só quem é realmente interessado em arte faz esta viagem. Embora fique relativamente perto de Belo Horizonte-, cerca de 60 km, é preciso pegar a BR 262 ou a 040 em direção a Nova Lima ou Contagem, mas vale a pena.

Residência Artística e hotel

BH e INHOTIM

Seguindo a tendência de museus internacionais, o Inhotim, recebe alguns artistas para Residência Artística. Atualmente não existe dentro do parque um lugar para instalar e receber estas pessoas, mas 45 bangalôs estão sendo construídos  e deverão estar terminados até o final de 2014 para abrigar estes artistas e hóspedes. O projeto de arquitetura é da arquiteta mineira Freuza Zechmeister.

O Projeto

Durante a visita, dois funcionários do parque-, Ronan Júnior e Marília Balzani nos acompanharam e explicaram o funcionamento do Jardim Botânico e pavilhões de arte.

“Temos no Inhotim um projeto educativo com visitas mediadas que propõem uma reflexão sobre o acervo; principalmente as visitas que são casadas; isto é a gente fala sobre o acervo botânico e o artístico e seus encontros e desencontros. Associamos o Jardim Botânico ao Museu de Arte Contemporânea e a integração das artes plásticas com os jardins.

Existe uma estufa onde são preparadas as mudas e onde ficam as novas espécies para ficaram aclimatadas. Assim que acontece esta adaptação, elas passam a compor as paisagens com novos canteiros e cantinhos. A idéia é juntar as esculturas e intervenções com o jardim botânico.

Em muitos capítulos da história da arte a escultura é associada a jardins planejados. Eram outros modelos! Aqui a disposição das obras são pensadas e planejadas assim como seu entorno. Nossa intenção é a de que o visitante dialogue com a obra de arte e a relação que estabelecem a partir do ambiente em que ela está inserida. A partir das curvas e do paisagismo de cada área, são escolhidas as obras que deverão compor o cenário. Relações estéticas e de cores são levadas em conta e implantadas dentro do parque. Podemos citar a escultura do Cildo Meireles. Quando ainda era uma fazenda, ele veio aqui, escolheu um local aberto, montou a escultura, que é uma das primeiras de Inhotim e, em um dos caminhos principais. A obra foi disposta e o paisagismo foi pensado para que todo o entorno ficasse em harmonia.

Atualmente está tudo integrado, a arquitetura, o paisagismo, as obras e instalações. Muitos artistas foram trazidos para cá com a intenção de repensar o lugar. Alguns deles, também fizeram e fazem residência artística. Desenvolvem uma obra e criam intervenções especialmente para o Inhotim.

No começo da estruturação do Inhotim como instituto, Bernardo Paz era amigo do Burle Marx. Na ocasião, ele fez algumas visitas e deu algumas opiniões e palpites de como poderia ser o paisagismo, mas ele não tem nenhum projeto aqui dentro. Ele é só um referencial, porque as curvas e caminhos são inspirados nele e a nossa intenção é provocar o visitante para que na próxima curva seja diferente”.

 

Como chegar

A 60 km de Belo Horizonte, Inhotim fica no município de Brumadinho. A BH Turismo, cobra R$60,00 e te leva até lá; mas tem que ser no mínimo de 5 pessoas para eles fazerem este trajeto. Tem ônibus que sai da rodoviária de Belo Horizonte  às 9h (chegando às 10h30) e parte de volta às 16h (chegando às 17h30). Para mais informações visite o site do Inhotim que todas as informações estão lá.

O Instituto Inhotim localiza-se dentro do domínio da Mata Atlântica, com enclaves de cerrado nos topos das serras. Situado a uma altitude que varia entre 700 m e 1.300 m acima do nível do mar, sua área total é de 786,06 hectares, tendo como área de preservação 440,16 ha, que compreendem os fragmentos de mata e incluem uma Reserva Particular do Patrimônio Natural  (RPPN), com 145,37 ha. O parque abriga diversas plantas raras, tanto nativas quanto exóticas.

 

A área de visitação do Inhotim tem 96,87 ha e compreende jardins, galerias, edificações e fragmentos de mata, além de cinco lagos ornamentais, com aproximadamente 3,5 hectares de espelho d’água. O jardim botânico tem 4.300 espécies em cultivo – marca atingida em 2011 – e está cercado por mata nativa, com trinta por cento de todo o acervo em exposição para o público (cerca de 102 hectares em 2011). Em reconhecimento à necessidade de preservar os 145 hectares de reserva, o instituto recebeu do Ministério do Meio Ambiente, em fevereiro de 2011, a classificação oficial de Jardim Botânico na categoria C. Nesse jardim, estão cerca de 1.500 espécies catalogadas de palmeira, a maior coleção do tipo do mundo.

O nome

Conta a história que a área era de uma mineradora do século XIX e tinha como responsável um inglês chamado Timothy – o Senhor Tim, que na linguagem local, acabou sendo chamado de “Nhô Tim ou Inhô Tim”.

O começo

Bernardo Paz, um empresário da área de mineração e siderurgia, foi casado com a artista plástica carioca Adriana Varejão. Há 20 anos começou a se desfazer de sua valiosa coleção de arte modernista, que incluía trabalhos de Portinari, Guignard e Di Cavalcante, para formar o acervo de arte contemporânea que está no Inhotim.

Em 2006, o local foi aberto ao público em dias regulares sem necessidade de agendamento prévio. O acervo abriga obras da década de 70 até a atualidade, em dezoito galerias. São 450 artistas brasileiros e estrangeiros, com destaque para trabalhos de  Cildo Meireles, Tunga, Vik Muniz, Hélio Oiticica, Ernesto Neto, Matthew Barney, Doug Aitken, Chris Burden, Yayoi Kusama, Paul McCarthy, Zhang Huan,2 Valeska Soares, Marcellvs e  Rivane Neuenschwander.

As exposições são sempre renovadas e novas galerias e projetos inaugurados periodicamente, fazendo de Inhotim um lugar em contínua transformação.

Museu de arte moderna

Além das 170 obras de arte em exposição, o museu conta com 98 bancos do designer Hugo França.

O primeiro banco foi colocado no jardim em 1990, sob a sombra da árvore tamboril, um dos símbolos do parque. Os bancos são feitos de troncos e raízes de pequi-vinagreiro, árvore comum na mata atlântica, que são encontrados caídos ou mortos na floresta. O museu promoveu no ano passado (2013) a maior troca de acervo desde 2006.

Entre os autores das obras permanentes, Adriana Varejão uma artista plástica brasileira contemporânea. Participou de diversas exposições nacionais e internacionais, entre elas, Bienal de São Paulo, Tate Modern em Londres e MoMa em Nova Iorque. No Inhotim tem um pavilhão dedicado à sua obra e o políptico (quadros com pinturas referentes ao mesmo assunto divididas por várias telas separadas apenas por moldura) toma como referência as pinturas de azulejo de figuras avulsas. Ao contrário dos grandes painéis, que na azulejaria tradicionalmente narram acontecimentos históricos, lá cada azulejo representa uma figura isolada. Varejão escolheu representar as espécies Darlingtonia, Dionaea, Drosera, Heliamphora e Nepenthes, todas plantas carnívoras. Valendo-se de uma das modalidades mais consagradas da pintura in situ, a pintura de forro, a obra pode ser visualizada a partir do primeiro ou do segundo piso.

Cildo Meireles conhecido internacionalmente, cria os objetos e as instalações que acoplam diretamente o visor em uma experiência sensorial completa, questionando, entre outros temas, a ditadura militar no Brasil e a dependência do país na economia global. Ele tem desempenhado um papel chave dentro da produção artística nacional e internacional. Situando-se na transição da arte brasileira entre a produção neoconcretista  do início dos anos 60 e a de sua própria geração, já influenciada pelas propostas da arte conceitual,  instalações e performances, as obras de Cildo Meireles dialogam não só com as questões poéticas e sociais específicas do Brasil, mas de todo mundo.

Doug Aitken nasceu na Califórnia em 1968. Estudou inicialmente ilustração para revista com em Pasadena, antes de se formar em Belas Artes em 1991. Ele se mudou para Nova York em 1994, onde teve a sua primeira exposição individual na Galeria 303. Ele atualmente vive e trabalha em Venice na Califórnia e Nova York.  O conjunto da obra de Aitken varia de fotografia, mídia impressa, escultura e intervenções arquitetônicas, à narrativa filmes, som, único e obras multi-canal de vídeo, instalações e performances ao vivo.

No Inhotim, o Sonic Pavilion foi criado e concebido em 2009. Um pavilhão de vidro e aço, revestido de película plástica; poço tubular de 202 m de profundidade, com microfones e equipamento de amplificação sonora. É  uma obra site-specific (especialmente para Inhotim) desenvolvida a partir de uma ideia pré-existente e resultado de um processo de cinco anos, entre pesquisa, projeto e construção. A obra se fundamenta num princípio bastante simples, embora ambicioso e de complexa realização. Trata-se de abrir um furo de 200  metros de profundidade no solo, para nele instalar uma série de microfones e captar o som da Terra. Este som é transmitido em tempo real, por meio de um sofisticado sistema de equalização e amplificação, no interior de um pavilhão de vidro, vazio e circular,  que busca uma equivalência entre a experiência auditiva e aquela com o espaço. Doug Aitken encontrou em Inhotim não apenas as condições técnicas para o desenvolvimento da obra, mas também um contexto onde o trabalho fizesse sentido.

Definir o que  de  fato escutamos  no interior de Sonic Pavilionnão é  simples –  micro ruídos são gerados no interior da Terra, mas a enorme cavidade também cria um espaço de  reverberação  contínua, cujo som  é  transformado  pelo  trabalho  de  equalização. Ouvimos um padrão  nunca  repetitivo, rico em  frequências e  texturas, que  remete  à música minimalista de Terry Riley e Steve Reich. Do último, uma possível referência seria a peça processual Pendulum music (1968),  em que o som é gerado pelo movimento dos microfones em relação às caixas de som. O que Reich disse sobre sua peça parece servir como uma definição para  o processo sempre  contínuo, vivo  e aberto  de  Sonic Pavilion: “uma vez que o processo é estabelecido e iniciado, ele funciona por si mesmo”.

Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão, conhecido como Tunga, nascido em Palmares em 1952  é escultor, desenhista e ator de  performance artística brasileiro. Vive no Rio de Janeiro e estudou arquitetura na Santa Úrsula.

Tunga conheceu o modernismo brasileiro muito cedo. Inicia sua carreira na década de 70. Na época, faz desenhos e esculturas. Traça imagens figurativas com temas ousados, como na série Museu da Masturbação Infantil. Em 1986, recebe o Prêmio Governo do Estado por exposição realizada no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. No ano seguinte, realiza o vídeo Nervo de Prata, feito em parceria com Arthur Omar (1948). Em 1990, recebe o Prêmio Brasília de Artes Plásticas e, em 1991, o Prêmio Mário Pedrosa da Associação Brasileira de Críticos de Arte – ABCA pela obra Preliminares do Palíndromo Incesto. Para realizar seu trabalho, investiga áreas do conhecimento como literatura, filosofia, psicanálise, teatro, além de disciplinas das ciências exatas e biológicas.

Na Galeria Psicoativa do Inhotim, dedicada ao artista, de 2800 m2 e no entorno uma mata reflorescida, Tunga buscou inspiração na capacidade da natureza de gerar vida -, que chama “mistério da mata”. Sua intenção é inspirar os visitantes a criarem novas leituras de suas obras.

Autoretrato no pavilhão de Cildo Meireles

O espaço de Tunga impressiona realmente! É todo envidraçado, transparente e com enorme pé direito. Dentro estão reunidas as obras mais importantes em seus 30 anos de carreira como a instalação de 1980 “Ão” na qual existe um percurso dentro de um túnel que nunca termina e onde é projetado em “looping”.  Obras como Lezart, 1989- cobre, aço e imã, Cooking Crystals Expanded, 2009, Nociferatu, 2001 – 2001, Palíndromo incesto, 1990 – 1992, fio de cobre, imã, folhas de cobre e limalha de ferro, A Luz dos Dois Mundos, Nosferatu, 1999 vidro soprado, luz e seda e Laboratório Nosferatu, 1999 – 2012 vidro laminado, espelho, ferro, vidro soprado, luz e papel, também estão expostas na Galeria Tuna.

*O jornal The New York Times, em referência ao Inhotim, citou certa vez que “poucas instituições se dão ao luxo de devotar milhares de acres de jardins e montes e campos a nada além da arte, e instalar a arte ali para sempre”.

*Aberto de terça a domingo e aos feriados, o Inhotim oferece visitas temáticas, com monitores, além de visitas educativas para grupos escolares,  que devem agendar previamente. As terças a entrada é de graça.

Nota do Redator:

A experiência de ter ido ao Inhotim foi única e inesquecível. É certamente um dos lugares mais belos e exuberantes que conheci.

*Agradecimentos especiais a jornalista Angela Buaiz (que participou das entrevistas) e aos fotógrafos Eduardo Wermelinger e Renato Soares.

Referências www.wikipédia.org e www.inhotim.org.br