por Margô Dalla-Schutte e Júlia Abreu de Souza

De Ben Moser:

Clarice, Susan e Benjamin Moser. “Clarice eu escolhi. Sontag me escolheu”.

Benjamin Moser,  38 anos, olhos grandes, azuis, sorridente, Ben, como é chamado, é escritor, historiador, autor de “Clarice, uma biografia”, cativa pela erudição mesclada à simplicidade e à espontaneidade. O respeitado intelectual americano, conhecido como “o missionário da literatura brasileira”, tem um currículo impressionante e fala sete ou oito línguas- quase sem sotaque.

Foto Margô Dalla

Na sua casa do século 17 de Utrecht, cidade pré-medieval no coração da Holanda, Ben Moser nos recebeu para uma entrevista sobre seu novo trabalho que é a biografia de nova-iorquina Susan Sontag, escritora, crítica de arte e ativista dos direitos humanos e, é claro, sobre Clarice Lispector.

Margô, Júlia e Ben

Há poucos meses, entrevistamos o escritor/tradutor holandês Harrie Lemmens e ele disse que “traduzir é inventar o que já está lá” e para um biógrafo, que através de uma coleção de fatos, escreve e narra as fases da vida de uma pessoa; você acredita que o enfoque, a visão do biógrafo torne o biografado sempre mais interessante?

Claro que sim-, porque a gente não é muito interessante…

 A gente quem?

Ninguém…nem Susan Sontag, nem Clarice Lispector são interessantes, nem você, nem eu…a gente leva nossas vidas. Vamos ao supermercado, esquecemos de pagar as contas. Podemos fazer coisas interessantes, mas a arte do biógrafo e dar um sentido a uma vida. Isso, na própria vida, ninguém consegue fazer. A vida da gente vai a todas as direções, mas para o leitor, você precisa fazer uma
narrativa-, essa é a diferença.

Então um biógrafo se coloca muito…. 

Eu comparo uma biografia a um retrato de um pintor ou de um fotógrafo.  Tem um programa de televisão holandesa muito legal, eles convidam uma celebridade e trazem três artistas para pintá-los. E cada retrato, feito na mesma hora, da mesma pessoa, nas mesmas condições, é totalmente distinto do outro.

Foto Margô Dalla

Você acha que o biógrafo é um pouco “voyeur”, um pouco “bisbilhoteiro” 

 

Depende do olhar, depende de como eu coloco a pessoa. Um dos grandes perigos das agências de segurança americanas, o de colecionar absolutamente tudo que a gente fala e pensa e escreve, é que, quando chega a hora de atacar alguém, você pode transformar até a pessoa mais fofa num monstro. Pegando uma frase aqui, um mau humor lá, um ex-namorado ressentido … sem que isso seja a verdade sobre a pessoa. Como numa foto feia: será que a foto verdadeira é sempre a mais feia? E muito mais quando se trata de uma pessoa como Clarice ou a Sontag: sei mesmo tudo sobre elas. Sei coisas horríveis. E vem a pergunta: será que coloco isso tudo dentro? Que impressão quero deixar? Uma impressão honesta, sim. Mas também que explique o porquê do livro. Vou trabalhar anos em prol de uma pessoa que acho feia ou indigna? Deus me livre!

É importante isso…o que você como biógrafo inclui e o que omite-, porque a biografia é um compromisso muito forte.

Sim. A vida da pessoa está entre as suas mãos. Então você precisa andar com amor, com o mesmo respeito com que você gostaria que algum futuro biógrafo te tratasse. Tem que entender as pessoas, até quando fazem coisas ruins. Todos nós fazemos coisas ruins, todos nós mentimos. Então a pergunta não é essa. Para o biógrafo, como para o romancista ou o psicólogo, a pergunta é: por quê.

Você coloca sua experiência de leitor? O que gosta de ler em uma biografia.

Eu quero que as pessoas fiquem empolgadas, que queiram conhecer mais. Quero levá-las a descobrir uma coisa que amplie a sua vida, não que a “apequene”. Com Susan, com Clarice, são obras que nos enriquecem bastante.

 Ben, qual o maior erro que um biógrafo comete?

Interessante, ninguém nunca me perguntou isso. Eu diria que é contar demais. Não saber escolher, tentar botar tudo, falar que na quarta-feira tal ela comia peixe com molho de tomate. Ninguém quer saber disso.

 Cortar palavras…

Sim. Mas falo isso sabendo como é difícil. Para a Sontag, por exemplo, já fiz mais de 500 entrevistas. Tenho material para uma biografia de 18 volumes. E eu quero contar tudo! Mas se fizesse isso ninguém ia ler. Quero estimular as pessoas a ler o meu livro, e depois passar a descobrir a obra.

Foto Margô Dalla

Estávamos pensando, Ben…essa questão de entrevistar as pessoas, a memória das pessoas. Será que elas se lembram? Existe uma subjetividade  em relação ao biografado. Até que ponto isto é confiável?

Não é confiável. Ninguém é confiável! Eu não, você não. Porque tudo tem a ver como o seu olhar, que foco você dá a tal história. Todo mundo tem sua versão. Além disso, muita gente quer ficar parecendo mais inteligente, mais rico, mais bonito do que é. No caso da Clarice, todos queriam ser o seu melhor amigo e diziam: “Ah eu ia passear diariamente com Clarice, etc…” E eu estou lá escutando e sei que não era verdade. Porque depois de entrevistar centenas de pessoas você sabe muito. Não é o fato das pessoas mentirem, porque, de novo, todo mundo mente. É a maneira de mentir é que é interessante. Sobre o quê? Como é que contam a história? Aí que fica interessante.

Então você tem que confiar e depois tirar suas próprias conclusões.

Eu confio sim, mas confio no meu gosto e nas minhas intuições porque são produto de muito trabalho, de anos de leituras, de inúmeras viagens e entrevistas. Confio também no imprevisto. Você sempre parte para uma série de perguntas, e sai depois aprendendo algo totalmente diferente. Por exemplo, agora voltei de Paris onde fui ver Pierre Berger (companheiro deYves Saint Laurent). Ele conhecia uma ex-namorada de Sontag, uma senhora da alta aristocracia francesa, e queria saber mais sobre ela. Mas o que aprendi foi uma outra coisa interessante, que era como se dizia que você era gay naquela época. Perguntei, como é que você diria que tinha um novo namorado? Diria, por exemplo, esse é meu novo amigo? Ele falou que de jeito nenhum. Bastava falar: Esse é Yves. E todo mundo entendia. Explicou os “códigos.” E isto explica muito porque a Sontag não se referia as mulheres da vida dela como amantes, mulher, esposa … mas apenas Nicole ou Carlotta ou Irene.

Como é que você começa? Uma editora te contrata ou é um projeto pessoal seu?

Com Clarice, todos os recursos foram meus. Eu banquei todo o projeto por cinco anos, com a esperança de um resultado positivo. Mas sem saber. Porque fiz tudo sem editora, risco total, porque poucos sabiam quem era ela. No Brasil sabiam, mas eu não sou de lá e minha idéia não era de fazer o livro para o Brasil. Pretendia trazer uma parte do Brasil para fora.

Foto Margô Dalla

E você fez isso. Você se sente realizado?

Muito. Virou quase moda em muitos países ler o meu livro Clarice. Agora estou introduzindo a Clarice na Holanda. Saiu recentemente também na Austrália. A imprensa da Austrália está comentando. E agora acabei a edição dos “Contos completos” em inglês, algo que até no Brasil nunca foi publicada.

Ben Moser com os originais de “Contos de Clarice”

Já a Susan é mais conhecida…

Lá é diferente. Fora do Brasil, Clarice era desconhecida e queria torná-la famosa. Susan era famosa e agora pretendo mostrar até que ponto ela era desconhecida. Que o que você pensa que sabe, não sabe.

Fernando Morais disse que é muito mais difícil escrever a biografia de uma pessoa que está ainda viva; isto porque ele escreveu sobre Paulo Coelho. Como você vê isso?

Acho também muito difícil fazer a biografia de uma pessoa viva. Na vida da Clarice, há uma continuação que se completa na morte. Toda vida tem um começo e um fim, e o fim é muito importante. Conversando com dona Tânia, a irmã de Clarice, perguntei se ela tinha noção da obra que estava deixando para o mundo. Ela ficou muito séria e disse que ela sabia sim. A morte era o encerramento de alguma coisa. Com a Sontag era o contrário. Ela pensava que não prestava, morreu decepcionada.

Tem a ver com ambição, com insatisfação pessoal?

É isso. É a história dessa menina que vou contar no meu livro. Ela era filha de alcoólatra, o que quer dizer que ficou adulta muito jovem, com responsabilidades graves, porque o adulto não tem condições de assumir seu papel. As crianças assumem. E a sensação de nunca estar à altura fica durante a vida toda.

Fazendo uma comparação entre a Clarice e a Sontag…

Clarice era mais inteligente de certa forma, de uma forma artística, não de uma forma intelectual. Ela não tinha lido 5% dos livros que a Sontag havia lido. Não era muito disso. Ela gostava de ficar no Jardim Botânico inventando histórias e pensando sobre o mundo.

Como aconteceu de você escrever sobre duas mulheres brilhantes, de nacionalidades e personalidades diferentes?

A Clarice eu escolhi. A Sontag me escolheu. Estava no Rio e uma pessoa ligou:”Ben, a gente resolveu que tem que ser você para fazer a Susan Sontag.” Parece que tinha um comitê, o editor, o agente e o filho dela se juntaram para ver quem faria. Eles tinham lido “Clarice” e falaram: “Tem que ser este cara”. Peguei um vôo para Nova York. Gostei da idéia e terminei aceitando.

 Em que ponto você está?

Eu já praticamente terminei as pesquisas e as 500 entrevistas, mas ainda tenho que voltar para NY e vou para Paris para falar com o filho dela. Vários dias de entrevista.

Quem te escolheu para fazer Clarice?

Há quem diga que “ela” me escolheu. O espírito dela me escolheu. Quem sabe.

Encerramos esta parte da entrevista: entendemos que as duas mulheres de Ben eram escritoras, judias, fortes, mas enquanto uma sabia o que fazia e a importância do que escrevia, a outra queria sempre mais e mais, em uma tentativa de superar suas próprias inseguranças.

Ben Moser em seu jardim em Utrecht

Júlia e Ben em sua biblioteca de Utrecht

Margô e Ben com a primeira prova do livro “Contos de Clarice”